reprimir pela força de vontadefazer da ascese um mérito
“A ascese, nas Sagradas Escrituras e nos Pais, não é expiatória diante de Deus, mas é o meio indispensável de pisotear o diabo e adquirir a liberdade e o amor desinteressados.”
Contrapontos
A crítica protestante e a herança comum
A crítica aos ortodoxos
Dilui a certeza do perdão.
Dá peso demais ao esforço humano.
A linguagem jurídica está na Escritura (Rm 3–5).
Herança dos Pais no protestantismo
Calvino: união com Cristo.
Wesley: santificação real, lendo os Pais.
Aulén: Christus Victor.
N. T. Wright: nova criação.
Contrapontos · A tradução
Em quem todos pecaram?
Rm 5,12 · eph’ hō pántes hémarton
O texto central da moldura jurídica, e uma diferença que nasce da tradução.
Latim (Vulgata)Grego (Romanides)
in quo, “em quem [Adão] todos pecaram” → culpa herdada.“por causa da qual [a morte] todos pecaram” → herdamos a morte, e ela leva ao pecado.
“Os Pais gregos […] veem [a salvação] como redenção da morte e da corruptibilidade e como cura da natureza humana.”
E agora?
Diante de Deus, somos réus a perdoar ou doentes a curar?
“Ocidente”, aqui, é sobretudo o protestantismo evangélico de raiz agostiniana e reformada (batistas, presbiterianos).
Primeiro vêm as diferenças de conceito, depois o impacto na prática.
São ênfases de tradição, não regras absolutas: há muita variação entre igrejas e teólogos.
Para os judeus, como Jesus e os discípulos, a queda de Adão não era uma culpa herdada. Essa interpretação surgiu no início do século V, com Agostinho.
Na tradição reformada soma-se a “depravação total”. É o alvo da crítica de Sacks: “para o cristianismo, ele é corrupto, manchado por um pecado original que só a graça salvadora de Deus pode remover”.
Agostinho desenvolveu a culpa herdada numa teoria aceita no Ocidente.
Do lado oriental, Cirilo de Alexandria (c. 376–444, Pai grego): “todos foram feitos pecadores, não como cotransgressores de Adão, mas, sendo de sua natureza, caíram sob a lei do pecado”.
O judaísmo não tem a ideia de culpa herdada nem de dívida a pagar: o homem tem uma inclinação ao mal (yetzer hará), mas continua livre para escolher, e a resposta ao pecado é a teshuvá, o retorno a Deus.
A crítica de Sacks mira o cristianismo em geral, mas o que ela descreve é sobretudo a leitura agostiniana e a “depravação total” reformada; nesse ponto, os judeus estão mais perto dos Pais gregos, que também não falam em culpa herdada nem em dívida. A diferença continua: para os Pais, a cura vem em Cristo, que o judaísmo não reconhece como manifestação da graça.
A discordância de Romanides e de Sacks é com a culpa herdada, não com o pecado pessoal, que continua pedindo arrependimento e perdão nas três tradições.
E as quedas de quem já foi batizado? Ver o quadro “E as quedas?” em Ato ou processo?↩.
No Ocidente, a confissão traz o perdão. Para o crente já justificado, os reformados falam em restaurar a comunhão com o Pai, não em ser justificado de novo, mas a linguagem de fundo é a do tribunal: a culpa é removida.
Metánoia (mudança de mente) e confissão estão sempre disponíveis. O Credo fala em “um só batismo para a remissão dos pecados”, e a oração de absolvição pede perdão e cura juntos, porque o pecado é ato pessoal e também doença.
O Dia da Expiação (Lv 16): no tempo do Templo, era o dia em que o santuário era purificado e um bode levava os pecados do povo para o deserto.
O judaísmo do Segundo Templo usava a metáfora da dívida para o pecado pessoal: em aramaico, ḥoba significa ao mesmo tempo “pecado” e “dívida”. A oração Avinu Malkeinu (“Nosso Pai, nosso Rei”), rezada nos Dias Terríveis e no Yom Kippur, pede: “apaga, em tua grande misericórdia, todos os registros das nossas dívidas”.
O Pai-Nosso herda essa linguagem: “perdoa as nossas dívidas” (Mt 6,12). O que Sacks rejeita é a dívida herdada, não a ideia de dívida.
Para Romanides, no Ocidente a salvação é antes de tudo da ira divina, e o fim da morte decorre da satisfação da justiça.
Para os Pais, Deus não é a causa da morte; Cristo se fez homem para destruir quem tem o poder da morte.
Responde à pergunta que o passo anterior deixa: se a cruz não é pagamento, o que era o sacrifício?
No Templo, até sua destruição no ano 70, havia vários tipos. Depois disso, o judaísmo rabínico pôs no lugar dos sacrifícios a oração, o arrependimento e a caridade.
Korban, a palavra geral para oferta, vem da raiz “aproximar-se”. O holocausto (olá) era a entrega total.
O shelamim: parte da oferta era comida numa refeição de comunhão.
O sacrifício pelo pecado (chatat) purificava o santuário da contaminação, sobretudo de pecados involuntários e impurezas.
Pecados deliberados sem arrependimento não eram cobertos, e os profetas lembram que Deus quer o coração (Os 6,6; Sl 51).
O sacrifício de reparação (asham) vinha acompanhado da restituição a quem foi lesado.
Em Jo 1,29 o verbo é tirar, remover, como o bode que levava os pecados para o deserto no Yom Kippur↩ (Lv 16).
João Batista usa essa linguagem judaica: “batismo de arrependimento para o perdão dos pecados” (Mc 1,4).
O cordeiro pascal nem era sacrifício pelo pecado: era sinal de proteção contra a morte e de libertação (Êx 12). A leitura dos Pais, de Cristo que vence a morte (Hb 2,14), encaixa aí (Pagamento ou vitória?↩).
A diferença está na moldura: no Ocidente, a justiça de Cristo é “imputada” num ato e a transformação vem depois; para os ortodoxos, salvação é a própria união e cura, sem essa divisão.
O batismo, para eles, não apenas simboliza: une de fato à morte e à ressurreição de Cristo (Rm 6,3-5), e a pessoa passa a participar da natureza humana já curada nEle. Com a crisma, logo em seguida, recebe o Espírito.
Do grego chrîsma, “unção”. Na Igreja ortodoxa, é a unção com o óleo consagrado (o mýron), feita logo depois do batismo, também em bebês: é o dom do Espírito Santo, como em At 8,14-17.
No Ocidente, quando existe, costuma ser um rito separado, anos depois (a confirmação católica). Muitas igrejas evangélicas não o têm.
Ponte com outra linha, “Descarte ou renovação” (ainda não publicada): se a salvação é tornar-se semelhante a Cristo, não se trata de “mais salvo a cada dia”, como uma conta que enche, mas de uma relação que se aprofunda; andar contra a cura é afastar-se da própria salvação, sem um interruptor salvo/não salvo. No fim, todos encontram a mesma luz de Deus, alegria para quem se abriu e tormento para quem se fechou. A pergunta deixa de ser “entrar ou não no céu” e passa a ser “o que estou me tornando diante dessa luz”.
Sobre as quedas: para os ortodoxos, elas são esperadas e não desfazem a salvação; o caminho é o arrependimento e a confissão, sempre disponíveis. Imagem: um casamento começa num dia, mas amadurece, pode ser ferido e restaurado. “Caímos e levantamos, caímos e levantamos” (Padres do Deserto).
Entre protestantes, o tema varia: reformados falam em perseverança dos santos; arminianos admitem que se pode cair da graça. Os ortodoxos falam menos em certeza e mais em esperança e confiança na fidelidade de Deus.
Evangélicos leem os três tempos como justificação (passado, ato jurídico concluído e decisivo), santificação (presente, consequência) e glorificação (futuro).
Para os ortodoxos, os três são um mesmo processo de união e cura, sem um momento jurídico à parte.
Romanides pergunta se o amor de Deus por este mundo desce como coisa criada, a “graça criada”, porque um amor real faria Deus depender do mundo. A resposta ortodoxa é a distinção entre essência e energias, desenvolvida na linha “O desejo e a salvação” (ainda não publicada).
Energia vem do grego enérgeia, “atividade, operação” (raiz érgon, “obra”): nos Pais, é a ação e a vida de Deus voltadas para fora (criar, sustentar, amar, curar). Não tem nada do sentido esotérico atual de força impessoal, fluido ou vibração: é sempre Deus mesmo, pessoalmente, agindo do Pai, pelo Filho, no Espírito.
Monergismo: os reformados ensinam que só Deus age na regeneração.
Sinergia não quer dizer que o homem inicia o processo, nem que cada parte faz metade: a graça sempre vem antes.
Imagem do prisma: o prisma não produz a luz, apenas não a bloqueia e a deixa passar; e a luz, que é uma só, sai em cores próprias em cada prisma, ou seja, a graça não apaga a pessoa, revela-a. Um prisma sujo ou virado para o outro lado a bloqueia. A imagem é próxima de Basílio.
Basílio de Cesareia: os corpos límpidos e transparentes, tocados pelo raio de sol, tornam-se eles mesmos brilhantes e irradiam luz; assim as almas que portam o Espírito tornam-se espirituais e enviam a graça aos outros.
Resumo: todos afirmam a primazia de Deus; o que os separa é o estado da vontade caída e se a graça pode ser recusada.
Os reformados, seguindo Agostinho, veem o homem caído como morto, não apenas doente (Ef 2,1); por isso a regeneração precede a fé e é obra só de Deus (monergismo), e a graça dos eleitos é irresistível.
Os arminianos e wesleyanos (Armínio, Wesley) também dizem que, sozinho, o homem não pode voltar-se a Deus, mas uma “graça preveniente” (que vem antes) é dada a todos e devolve a capacidade de responder; essa graça pode ser resistida, o que os aproxima dos Pais.
Para os Pais, a graça sempre vem primeiro: em Cristo a cura já foi aberta a todos, e a luz já está incidindo (imagem do prisma↩).
Para os ortodoxos, a natureza está ferida, não morta: a imagem de Deus foi obscurecida, não destruída, e a vontade continua livre para acolher ou recusar a graça que vem antes.
Batismo ortodoxo: Rm 6,3-5. O que essa união muda na salvação aparece em Ato ou processo?↩.
Eucaristia: pela invocação do Espírito (epíclese), pão e vinho tornam-se de fato Corpo e Sangue de Cristo; quem comunga recebe a humanidade já curada dEle. “Remédio da imortalidade” é de Inácio de Antioquia (séc. II).
Os ortodoxos afirmam a realidade sem defini-la filosoficamente (diferente da transubstanciação católica).
Do grego áskēsis, “exercício”, “treino”: a palavra do preparo do atleta. Na tradição ortodoxa, é o treino da pessoa inteira para acolher a cura: oração, jejum, vigília, esmola e atenção aos próprios pensamentos.
Na moldura terapêutica, o desejo não é sufocado: é curado e redirecionado para Deus; a saída da carência é ser preenchido, não vencer no braço.
O risco do lado oriental (ascese como mérito) é justamente o que Romanides descarta: a ascese não é expiatória diante de Deus. O risco existe na prática, mas a resposta de Romanides é que a ascese não compra nada de Deus: é o meio de vencer o diabo e libertar o amor do egoísmo.
Ele critica o luterano Nygren, que acerta o alvo (o amor que “não procura o seu próprio interesse”, 1Cor 13,5), mas, por crer na salvação só pela fé, ignora o papel da ascese; e pergunta: “Como pode o homem libertar-se do egoísmo senão pela fé, pela graça e pela ascese?”.
O que parece “oriental” é, na verdade, herança comum dos Pais, que também aparece em teólogos protestantes. Há ainda a leitura finlandesa mais participativa de Lutero.
A crítica protestante aos ortodoxos é diluir a segurança do perdão e dar peso demais ao esforço humano. A defesa da moldura jurídica é que ela está na Escritura (Rm 3–5), protege a gratuidade (nada a merecer) e a certeza do perdão liberta para amar.
Gustaf Aulén (luterano) recuperou a leitura de Cristo vitorioso.
N. T. Wright (anglicano) lê 1Ts 4 como ir ao encontro de Cristo, não fuga do mundo.
O grego diz “assim a morte passou a todos os homens, eph’ hō (ἐφ’ ᾧ) todos pecaram”.
A Vulgata latina traduziu “in quo omnes peccaverunt”, “em quem todos pecaram”, e Agostinho leu “em quem” como “em Adão”: todos pecaram nele e herdam a sua culpa.
Mas hō pode ser neutro e não se referir a Adão: a maioria dos tradutores modernos lê “porque todos pecaram”, e Romanides o refere à morte, “por causa da qual todos pecaram”. Então não herdamos a culpa de Adão, herdamos a morte e a corruptibilidade, e é a morte, com o medo dela, que leva cada um a pecar (Hb 2,14-15).
Por isso Cirilo diz que fomos feitos pecadores “não como cotransgressores de Adão” (Culpa ou doença?↩).
No Ocidente, a transformação vem como resposta ao perdão declarado; no Oriente, ela é a própria salvação: a natureza é curada em Cristo e a pessoa participa dessa cura pela graça, cooperando com ela.
Os dois caminhos miram o mesmo alvo, o amor desinteressado, tema da linha “O desejo e a salvação” (ainda não publicada).
E o contraste: no Ocidente, salvação significa antes de tudo salvação da ira divina, e não da morte e da corruptibilidade (Pagamento ou vitória?↩).
Cor = moldura.Azul é o juiz (Ocidente, à esquerda). Ouro é o médico (Pais gregos, à direita).
Sublinhado pontilhado abre uma nota, no texto ou no título. ↩ leva a um slide relacionado, com caminho de volta.